À instantaneidade
Moonlight Sonata. Não tem música mais explanada que essa para piano e, mesmo assim, exaustivamente repetida ao ouvido, ela ainda comove. Mexe, de alguma maneira. Dá uma colherada na panela de carne moída pra não grudar.
Daí eu começo a pensar que é uma coisa que se desgruda da lembrança da música. Cada nota que toca ali você já conhece mas não é o saudosismo, a memória, que te emociona. Se a emoção vem pela memória, a música foi só referência. Digo do que a harmonia tem de te dar aquela sensação. A própria harmonia que se criou é que te angustia, que vibra o peito, que desprende energia. Energia num conceito físico, até, fazendo mover, enfim, coisas que já passaram por aqui. Aquela coisa vazia e nova, sem símbolos por trás. A música pela música, de vida própria, sem referências. Certo?
E eu caio na percepção sobre o vazio. Também já passou por aqui a história sobre o tempo dar razão às coisas, de modo que, não fosse a noção cronológica das coisas, seríamos seres irracionais. Irracionais no sentido de não ter nem memórias nem expectativas. Imagino que desprender-se disso totalmente é viver da vibração de se sentir vivo. Não que seja bom ou ruim, só estou entendendo o que seria. É a vida na sua mais pura forma. Instantaneamente sendo.
Então a expressão pessoal. A identidade. Aquilo que é individual. Único. Uma forma nova e independente de referências. E penso que o vazio de alguém é o que o faz crescer de 0 a 100, ao invés do que podia ser 100 e perdeu pontos. Penso que todos podiam ser nada e são alguma coisa. E o ponto zero, já citado antes, seria isso, esse ponto vazio de coisa, desprendida do que já foi ou do que supostamente deveria ser. E sendo, a aleatoriedade faz a escolha ser nova. Porque eu penso na vida brotando do chão, e cada gota é uma nova. Porque o universo é vivo, sincero e, por isso, aleatório. Qualquer coisa que existe, qualquer forma que tome a natureza, sempre será nova. E ser aleatório é ser entregue do ponto de vista racional. Sincero pois é se deixar pela despretensão sobre referências antigas. E a busca pela expressão pessoal, independente de gênero, seja na arte, física, biologia, psicologia, filosofia (pensando na transdisciplinaridade), é a busca por seu ponto zero. Tentar entender a diferença, ao invés do em comum.
Enfim, não pretendia chegar a algum final ou conclusão. O pensamento corre e se mantem vivo. Só pra registrar no tempo. E que assim, esclarecendo as coisas, eu possa ficar livre pra novos ares.