sábado, 21 de março de 2009

Ainda com a mente (relativamente) fresca sobre a histórica passagem de Radiohead pelo Rio de Janeiro, venho tratar do que me pareceu mais interessante no espetáculo. 

Espetáculo. Digo e repito. O cenário muito bem estruturado parecia colocá-los em uma atmosfera própria, uma bolha colorida que se inchava e contraía ali, na cara de quem quisesse estar vendo. Tubos compridos pendurados bem acima de suas cabeças até o alto. Fechavam um cubo. Um cubo mágico. Um cubo de Rubik que eles talvez estivessem tentando resolver. Os tubos de LED emitiam faixas de luz que completavam conceitualmente a obra ali exposta. As cores traziam todo o espectro visual das músicas e preenchiam ainda mais aqueles momentos. Efeitos sincronizados faziam parecer que tudo acontecia na hora, que era natural e só reagia ao som de maneira própria. O telão atrás vinha a complementar, ora com câmeras ao vivo espalhadas pelo palco, ora com efeitos climáticos. Desde o roxo frio, do ar gelado e escuro do início de Everything In Its Right Place, à psicodelia multicolor do solo de Paranoid Android. Tudo foi pensado de modo a transformar a apresentação em um espetáculo.

Mas o visual só vinha a complementar a obra sonora. A profundidade e ambiência são características marcantes dos caras e tudo isso apareceu, ao vivo, cada um no seu brinquedo fazendo sua parte numa puta ambiência sonora. E o silêncio. Faust Arp colocou todos mudos, afim de ouvir os dois violões cuidadosamente dedilhados, sabendo que cada nota era importante. Toda nota e não-nota era essencial para a proposta da música e não estava ali à toa. A noção de vazio era brilhante. Sabiam que, pra fazer barulho, teem que conhecer o não-barulho. Isso fazia cada solo essencial, preciso, de necessidade. Construíram do zero, do vazio, e cresciam. E o vazio numa estrutura daquela, um palco enorme, cheio de cores, milhares de pessoas à boca do palco, era o que mais me bagunçava a mente. Quando o público estava compenetradíssimo e os caras se segurando nas mínimas notas.

Momentos únicos esses, como também os de euforia. A troca público/banda estava intensa. Me percebi numa massa e não mais respondia por mim, mas por todos aqueles. Uma palma era mil. Estavam todos contagiados, um pelo outro, e incluindo banda. O crescendo de palmas, ao final do arpejo de Weird Fishes foi algo genial. A platéia reagindo à expectativa que a música cria em torno da virada. E foi crescendo, contagiando aos poucos. Era um corpo. Entoou-se backing vocals e instrumentais. Ed parecia o mais orgulhoso, do tipo "Hey guys, that's what I was talking about!". Thom não aguentou e riu, quando viu milhares de braços levantados em coro por "raaaaiiinn dooowwwnn" no bridge de Paranoid Android. Não se pode ter certeza sobre o que se passava na cabeça deles. Podiam estar estranhando muitíssimo as pessoas pulando eufóricas nas letras tão comprometidas da banda, mas de fato era uma experiência intensa. O público respeitou (embora não tenham dado o devido respeito ao Kraftwerk) o que estava ali diante dele. E a banda respeitou o que estava à sua frente. Sabiam do momento especial em que estavam.

Ao fim, não houve fim. A energia continuava pulsante na cabeça e me inquietava. Reencontrei os amigos que estavam comigo logo antes (uma pena não passarmos por todos os shows juntos) e respiramos. Precisávamos nos encontrar só pr'aquela última troca de compreensão. Todos se reconheceram no outro e estavam tranquilos. Como um corpo. Todos ligados. Até que fomos expulsos, então, pelo vazio da Praça Onze.

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