quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Quebrai-me com teu mais bravo peso.

Era um dia leve. Da parede branca, uma cortina branca. Da cortina branca, uma janela colorida pela luz que vinha das coisas do lado de fora. O quarto já se amarelava. Pensou que talvez valesse a pena partir à rua para tomar um café. Tomou os chinelos, vestiu uma blusa do avesso. Saiu se esburacando sobre os pneus de sua bicicleta. No dia, o quente havia combinado com o fresco na melhor medida, e estava tudo mais interessante de se ver e reparar. A cidade estava até mais calma ao ritmo de costume.

Encostou suas rodas e sentou ao balcão da padaria. Havia lá um cara estranho, que falava sozinho. Ora parecia falar enrolado, ora outra língua. Poucos davam-no ouvidos e isso não o incomodava. Só murmuriava, para si mesmo. Hoje era dia de ver e reparar. Quis perceber quem poderia respondê-lo. Ele parecia ser réu e promotor de sua própria consciência em crise. Qual seria a essência humana única e autêntica que permitiria, abaixo dela, essa bipolaridade? Se não é o gosto, o que sobra? O pão queimou e o café adoçou demais. Mas não era dia de reclamar. Era dia de ver e reparar.

Voltou pra casa. Trouxe da padaria um peso enorme. Muitos pães que pareciam incontáveis. Um dia iam estragar ou apodrecer, mas trouxe todos que podia carregar na bicicleta. Pensou ter pão pra sempre. Fechou a porta sem tranca. Tranquilo de si.

E aí veio a chuva.

E o branco gelado.

À essa altura, já era noite e só. Um trago pra subir, outro trago pra descer. Quebrado do que faz sê-lo daqui e de lá e dali ao mesmo tempo. Dos que batem e dos que apanham. Dormiu.

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