Acordei por nada, sem barulho ou susto ou pesadelo ou calor ou frio. Acordei porque cansei de sonhar coisas idiotas que fugiam ao meu controle. Quis olhar a hora mas evitei o esforço de esticar o braço a alcançar o celular. O sono tinha me cansado para além de seus limites oníricos e eu, às tantas da manhã, já estava esgotado. Fui tentando resgatar o que havia sonhado, me despreocupando em criar qualquer relação com a vida acordada. Lembrava que, logo antes de pousar em terra firme, estava voando em Londres. Voando, literalmente, voando. Não estava em um avião, planador, balão ou sequer tinha asas, mas podia voar. Me esforcei então para lembrar o que me fizera alçar vôo. Motivo? Há esse tipo de estruturação cognitiva e linear dentro de um sonho?Desarrumei o edredon que me cobria e sentei à beirada da cama. Flores, amarelas. Um campo delas. Todas desabrochadas e brilhantes, quase que me cegavam. Era um campo desse e uma casa de madeira, meio demolida, meio traçada pelas pestes, meio inteira e meio normal. Meio a meio a meio a meio. Fui levantando e, a cada esforço muscular, mais sangue bombava no peito, mais energia vinha à memória.
Nu.
Cueca.
Abri a cortina. A janela já não me trazia nenhuma novidade há meses. Resolvi investir no café-da-manhã-de-todo-dia e nem o fato de não ter pão me surpreendia mais. Eu sabia que precisava de algum tipo de incentivo psicológico para sair dessa vida de merda que (quiçá) só eu podia suportar. Já chegava a me incomodar e, nesse estágio, eu realmente precisaria de ajuda. Me espreguiçei preparando o esforço de ficar agachado em frente ao frigobar. Agachei. Abri a porta, peguei duas fatias de mortadela. Mastiguei-as, juntas. Engoli. Merda, a garrafa de água estava vazia. Quis ligar para alguém. Talvez saber como anda fulano.
Porra nenhuma. Queria me livrar desse cárcere louco que criei sobre mim mesmo. Paradoxal. A liberdade travestida me pegou de jeito e estava me fazendo um mal que eu nunca havia sonhado ou pensado ou imaginado. Me livrei da cobrança de papai e mamãe mas talvez tenha errado ao acreditar que pudesse viver sem me cobrar. Lá estava eu, sozinho, fodido e mal pago. É fato que as expectativas são sempre as melhores mas não imaginava que pudesse chegar a esse nível drástico, ridículo e embaraçoso. Nossos sonhos são sempre perfumados. Quer seja cheiroso, quer seja fedorento, o sentido está todo lá. Porém, quando acordado, se percebe que o cheiro de merda já estragou teu olfato e tudo o que te resta são os sonhos e as expectativas.
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